30.4.07

Despedida perdida.

Voltei para o Porto, mas minha casa e meu quarto já nem parecem meus. Todos aqueles aposentos de paredes brancas perceberam o meu desejo inquieto de abandoná-los logo, de ir e não voltar, de deixar a chave daquele retângulo de pé direito alto na gaveta, o chaveiro já quebrado, velho, sujo. A casa me recebe, mas é fria; fui tomar banho e a água quente só funcionou durante três minutos. Minha escova de dente já não está no banheiro, meu quarto empoeirado, minha cadeira com uma rodinha caindo fora sempre, o guarda-roupa vazio, a geladeira já não conserva nada para mim e o meu armário da cozinha só tem uma caixa de cereal velho e amolecido. Tento fazer as pazes, mas o desejo de fechar as portas do primeiro direita pela última vez é maior.

» é assustador como as coisas mudam.

25.4.07

"2 perdidos"

Quando eu quis você
Você não me quis
Quando eu fui feliz
Você foi ruim
Quando foi afim
Não soube se dar
Eu estava lá mas você não viu
Tá fazendo frio nesse lugar
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo mais
E já não caibo em mim
Quando eu quis você
Você desprezou
Quando se acabou
Quis voltar atrás
Quando eu fui falar
Minha voz falhou
Tudo se apagou você não me viu
Tá fazendo frio nesse lugar
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo mais
Onde eu já não caibo mais
E já não caibo em mim
Mas se eu já me perdi
Como vou me perder
Se eu já me perdi
Quando perdi você
Mas se eu já te perdi
Como vou me perder

* Arnaldo Antunes / Dadi
» ei, escuta aqui.

23.4.07

Dois espartanos em Fortaleza.

- Tô saindo de casa.
- E eu já tô chegando. Compro o seu ingresso e o meu e te espero na frente do cinema.
- Não dá. Você não tá com a minha carteira de estudante.
- Verdade. Droga! Deixei a minha em casa, vou voltar lá correndo.
- Certo. Te encontro lá na frente. Tá bom?
- Tá. Beijo.
Ele chegou lá aperreado, fez tudo correndo. Foi levantar a fitinha pra não ter que andar o caracol quilométrico e vazio que é a fila do cinema do Iguatemi dia de sábado dez da noite e uma mulher o encarou com um ar de reprovação. Ele entrou pela entrada e deu a volta completa: direita, anda, esquerda, anda, direita, anda, esquerda, anda, agora espera. Ficou sem acreditar no que fez, mas esqueceu rápido, lá vem ela, lá longe. Ela com aquele ar de quem procura, mas sabe pra onde está indo, só pra não parecer perdida. Ele levantou a mão e a menina veio correndo. Os dois em modo acelerado, pensando rápido, falando rápido, sem conseguir parar, era impossível conversar. A conversa era:
- Ainda tô em modo acelerado.
- É, eu também. Tô aqui suando. Andei o caracol todo.
- Não acredito. Sério?!?
E a fila demorava, demorava demais. Eles queriam sentar, parar um pouco. Finalmente, chegou a vez deles de comprar os ingressos.
- Boa noite.
- Boa. Dois pra Esparta, por favor.
- Esparta?!!!?
- Opa. Dois pra 300.
- O senhor tem um real?
- Tenho não.
- Tem sim, aquele que eu te dei hoje na delegacia.
- Tenho não, deixei no carro.
- Ah tá. Será que tenho aqui ainda?
- Moça, não precisa. Bom filme. Sala um.
- Obrigada.
Mais uma fila, dessa vez pra mostrar os ingressos. Já na fila, ele lembra: quero um chocolate. E aí depois de ponderar uns minutos se saíam ou não da fila, quase chegando a vez dos dois, saíram. E foram pra mais uma outra fila, a de comprar doce e pipoca. Ele ameaçou comprar pipoca pra menina, sabia que ela detestava. Ela disse que não queria nada. Ele comprou duas barras de chocolate crocante e um sprite. Finalmente entraram na sala de projeção. Estava passando um trailer de um filme com o Gael Garcia Bernal. A menina suspirou: adoro esse ator. E ele ainda inquieto: vamos sentar ali, não, melhor aqui. Sentaram, ele abriu um chocolate. Ainda tirando o sapato, a menina disse:
- Quero uma mordida.
- Esse é pra você.
- Pra mim?
- Porque você acha que eu comprei dois?
Ela encostou a cabeça no ombro dele, deu uma mordida no chocolate e o filme, que fala através das cores, começou. Os dois estavam em paz, encontraram a sintonia perfeita.

18.4.07

Pouco tempo atrás.

rapidinho, só quero te contar uma coisa:
eu
te
amo!
casa
comigo?
ahn, na verdade foi um segredo e uma súplica.

Era uma casa muito engraçada.

Nós dois desperdiçamos muita energia e tempo na construção de um castelo mágico, do único tipo que existe, o que quebra fácil. Só fui capaz de perceber o tamanho do esforço inútil quando uma moça desconhecida entrou em contato comigo, uma plebéia a comando do príncipe caído, pra pedir um favor vulgar, banal e desinteressante, um pedido quase ridículo. A vontade de gargalhar de raiva foi enorme e deliciosa, uma vontade feliz e capaz de aniquilar qualquer tipo de pesar. Agora, livrei-me de vez daquele castelo de mentira. A estrutura era composta apenas de vento e pó. Ah, mas é realmente uma verdadeira pena que eu tenha demorado tanto pra descobrir os elementos da liga de sustentação.

»desabafo antigo

19.3.07

Origem.

Olha só que legal: ele é chileno.

18.3.07

Dia de casamento.

O padre falava português com um sotaque gostoso, não usava palavras rebuscadas e conseguia falar direto com o meu indisciplinado palpitante. Não fui capaz de decifrar a origem daquele orador simpático, talvez italiano ou até mesmo americano. Isso nem importava tanto, estava feliz de ele haver sido colocado ali na minha frente para bater um papinho comigo, acalmar meu espírito. Eu estava toda de verde, um verde encantado e perdido, apesar de preferir estar a dois e em cores. A cor que zombava de mim era a cor perfeita para aquele meu dia triste, dia que eu queria que desaparecesse no meio dos dias apagados, no meio daqueles tantos outros que perderam o charme. O padre gringo percebeu aquela minha aura sem luz, olhou para mim por alguns segundos, em silêncio profundo, e falou com delicadeza ao meu ouvido. Foi um sussurro quente, do tipo que dá um sopapo lá dentro e você finalmente é capaz de chorar a par do motivo; lágrimas doídas, cheias de verdades antes camufladas. Ele me confidenciou uma afirmativa simples: amor é cuidado. E só então fui capaz de enxergar que aquele foi o dia em que soltamos as mãos.

12.3.07

"Quando o amor vacila"

Eu sei que atrás deste universo de aparências,
das diferenças todas,
a esperança é preservada.

Nas xícaras sujas de ontem
o café de cada manhã é servido.
Mas existe uma palavra que não suporto ouvir,
e dela não me conformo.

Eu acredito em tudo,
mas eu quero você agora.

Eu te amo pelas tuas faltas,
pelo teu corpo marcado,
pelas tuas cicatrizes,
pelas tuas loucuras todas, minha vida.

Eu amo as tuas mãos,
mesmo que por causa delas
eu não saiba o que fazer das minhas.

Amo teu jogo triste.

As tuas roupas sujas
é aqui em casa que eu lavo.

Eu amo a tua alegria.

Mesmo fora de si,
eu te amo pela tua essência.
Até pelo que você poderia ter sido,
se a maré das circunstâncias
não tivesse te banhado
nas águas do equívoco.

Eu te amo nas horas infernais
e na vida sem tempo, quando,
sozinha, bordo mais uma toalha
de fim de semana.

Eu te amo pelas crianças e futuras rugas.

Eu te amo pelas tuas ilusões perdidas
e pelos teus sonhos inúteis.

Amo teu sistema de vida e morte.

Eu te amo pelo que se repete
e que nunca é igual.

Eu te amo pelas tuas entradas,
saídas e bandeiras.

Eu te amo desde os teus pés
até o que te escapa.

Eu te amo de alma para alma.
E mais que as palavras,
ainda que seja através delas
que eu me defenda,
quando digo que te amo
mais que o silêncio dos momentos difíceis,
quando o próprio amor
vacila.

* Autor desconhecido

11.3.07

Pequenas trilhas.

O jeito mesmo é ir escolhendo, exercitando o desapego e torcendo para não tropeçar em algum erro importuno ou decepção incontornável. Se acontecer, xinga um pouco e continua.

Uni duni tê, salamê minguê, e (por enquanto) eu escolho vo-cê.

15.2.07

Era uma vez uma menina chamada Ela.

Ela não sabia como se relacionar com esse negócio arriscado de amar, então, logo cedo, decidiu não se envolver, tirar o time de campo e fugir - fingindo que não fugia - de qualquer relacionamento que beirasse alguma seriedade; a distância sempre dava uma mãozinha. Um dia, essa mesma distância virou a madrasta má; a menina já não queria mais o fim, queria uma reprise da abertura, almejava o clímax e o para sempre a apetecia. O longe já não era mais o novo e o desejado; era a tortura, era o não saber, a maldita insegurança. Ela mudou, virou inimiga dos quilômetros, dos dias, dos meses, do frio; depois ficou triste, pálida, meio esverdeada. Passou um bom tempo com a alma presa por um alfinete, até ele enferrujar e restarem apenas farelos da menina de antes espalhados por todo lado no piso de taco antigo e barulhento. Demorou um pouco até alguém varrer aquela bagunça e a jogar no lixo do banheiro, sem a delicadeza de perceber o solitário fim daquela menina amiga da distância e do frio. Isso tudo porque Ela não conseguia mais falar em voz alta que podia ser feliz de um outro jeito, de um jeito sem ele.

12.2.07

México.

Reforma no meu peito.

10.2.07

Conversas estranhas. Parte três.

- Porra! Esqueci meu isqueiro.
- Pede pra essa cara aí do lado que tá fumando.
- Com licença, pode me emprestar o isqueiro?
- Foda mesmo é saber que eu vou acordar amanhã sentindo essa mesma coisa de agora, esse nada, esse vazio, essa vontade de sentir algo diferente.
- Perdi o controle.
- Preciso sentir alguma coisa nova.
- Eu, na verdade, preciso é que ele faça um monte de coisa que ele nem imagina o quanto é essencial pra mim. O pior é que eu não posso falar o que preciso, ele tinha que saber. O que eu faço?
- Ele tá muito seguro.
- Podia me emprestar o isqueiro de novo? Obrigada mesmo.
- Muito seguro. Acho que amanhã vou vestir minha roupa mais foda.
- Colocar lápis preto no olho e ficar bonita.
- Me arranja um cigarro? Valeu.
- Vamos viajar? Tava pensando que a gente podia ir pra Dublin ou Helsinque. Sempre quis ir pra Helsinque, vi umas promoções na internet hoje.
- Quero sentir raiva, pelo menos já é alguma coisa nova pra sentir.
- Preciso da minha redenção logo. Mais um fino com groselha, por favor.
- Mais um fino comum pra mim, por favor.
- Porra, escuta a música que tá tocando. Ridículo, tão frescando com a minha cara.
- Não quero mais ser essa menina, a que só espera, conta os dias.
- O pior é que a gente não tem muita saída.
- Amanhã vai ser a mesma coisa, todo dia, toda hora, todo minuto.
- Tinha uma menina chorando na minha sala hoje, eu saí de perto.
- Já sei. A gente arranja um caso.
- Não adianta.
- Adianta. Não, você tá certa, não adianta.
- Eu gosto muito dele.
- E eu sou louca por ele. Tem mais cigarro?
- Não, acabou. Em casa tenho mais e tenho vodka também.
- Vamos embora então?
- Vamos, a pessoa que tá escolhendo as músicas tá adorando me ver sofrer. Eu vou quebrar a placa modem da internet quando chegar em casa, tá?
- Tá bom. Eu vou jogar o vidro de pasta de amendoim pela janela.
- Ótima idéia. Tem cinco euros?
- Tenho.
- Me dá. Com licença, vocês aceitam Visa?

2.2.07

"A bouteille d’eau"

o pedaço de um filme
apareceu para mim
tinha cabelos castanhos
tinha olhos castanhos
tinha um jeitinho assim
de saia menina
de fumo mulher
de ginga e de música
de poesia surda
de graça absurda
um querer que não quer

o pedaço de um filme
apareceu para mim
tinha trilha sonora
tinha gosto refinado
sapato descolado
moderninha escrotinha
pudor? acho que não tinha
apareceu para mim

o pedaço de um filme
chegou, tão assim
com uma dança esquisita
um esquisito bonito
com pausas e silêncios
falas não ensaiadas
uma sintonia despropositada
que chega a me estranhar de tão natural

o pedaço de um filme
chegou, tão assim
depois de tantos desencontros
enfim, o encontro
patinando sobre coincidências
apareceu colorida e sorridente
pra dizer com toda sua simpatia cinematográfica
dança comigo essa música?

*Pedro Câmara

27.12.06

Meu protagonista.

Ele não se aproximou aos poucos; foi logo assumindo o papel principal. Era alto, tinha uma projeção de voz incrível e uma presença de palco que a menina julgava inexistente. Foi fácil descobrir que ele era perfeito para o personagem de uma vida inteira, para o par romântico daquele roteiro com final feliz.

22.12.06

Só tenho dois minutos.

Ele sabia que ela tinha uma mania feia de derrubar tudo ao redor e queimar as pestanas com o isqueiro. Ela sabia que ele nunca ia conseguir decidir se queria mesmo o branco com o escudo tortoise. Eles se entendiam, a desastrada e o volúvel. Bateu uma saudade grande na menina e ela resolveu telefonar antes de dormir, só pra mandar o beijo que foi interrompido por falta de pagamento. Promessa de beijos enormes, saudade, falta só mais um pouquinho, força. A ligação também foi cortada, fim dos créditos. Depois da despedida truncada, ele voltou pra mesa e pra todas aquelas outras pessoas que ele nem fazia tanta questão de ter por perto naquele instante; queria mesmo era a menina que queima os cabelos quando vai fumar. Ela guardou o telefone dentro do tênis xadrez, ainda incompleta, virou de lado e fechou os olhos com o intuito de sonhar com o menino lá na praia. Acordou no dia seguinte, olhou pro lado direito esperando encontrar ele ali, sem camisa e com um pouco de dificuldade de respirar, uma esperança boba e típica de quem acaba de ter um sonho bom, mas nada, só a vela que queimou até o fim. Sozinha, naquela caixa de ângulos retos e pé direito alto demais, pensou: sou dele até mais do que eu normalmente julgo ser, incrível.

1.11.06

lista #001

» pouca bagagem de mão
» recorde mundial de velocidade
» lado esquerdo
» cinco minutos
» família e uma escapadinha
» palavras bonitas
» retiro espiritual
» mãos dadas
» filmes ruins no cinema
» sushi e a blusa listrada bonitona
» um menino, o menino
» apartamento multicolorido
» filmes bons em casa
» pipoca doce e salgada
» e dias mais bonitos

17.10.06

|T|udo |P|reto |M|omentaneamente

Ontem acordei cansada daqueles mesmos olhos grandes, escuros e tediosos me olhando de volta sem nenhuma curiosidade no espelho embaçado por causa do vapor. Passei a manhã inteira aborrecida com aquele meu jeito de andar e falar tão sem graça e principalmente com aquele meu problema de audição estúpido que em dias mais bonitos já me pareceu tão charmoso. Sem vontade de fazer nada ou de interagir com mais ninguém além daquela pessoa que hoje era um enigma, mas da qual não podia escapar, passei a tarde toda no meu quarto de paredes completamente brancas. O tempo inteiro sem paciência para aquelas mesmas músicas no meu computador, aquelas mesmas roupas no armário, aquelas mesmas palavras no livro vermelho e aquelas mesmas sardas no corpo inteiro. Tudo idêntico a sempre. Dominada por uma ambição de trocar de corpo e de ir pra um lugar bem distante a fim de ver cores e pessoas inusitadas evitei o resto do mundo. Estava tão cansada de tudo aquilo que até dormir foi difícil. Alcançava apenas um sono inquieto e facilmente perturbado, consciente da vontade de dormir, consciente da incapacidade de relaxar, um sono que não buscava o descanso, não almejava sonhos, ansiava apenas pelo fim daquele dia impraticável. Ontem era impossível lembrar que o episódio desastroso era temporário, mas hoje já voltei a achar minhas sardas únicas e delicadas e amanhã com certeza volto a enxergar turquesa e magenta por todo lado.

Namorada.

...love’s just a game, broken all the same
and I will get over you

love’s just a lie, happens all the time
swear I know this much is true...

- Déa, se prepara que lá vem o hooooooo woooooo wooooo woooooo wooo hoooooooo.

E era todo dia assim, durante aqueles dias em que eu precisava dela e ela de mim e que selaram uma amizade para sempre. Uma daquelas amizades boas que só acontecem de vez em quando e dão direito a cereja gigante, milhares de quadradinhos brilhosos, arroz na China, ponto de ônibus e travesseiro, bolinhas e xadrez, labirinto na neve, trilha sonora, sacos enormes da melhor pipoca doce, jardins bonitos e luvinhas coloridas sem dedo. Daquelas que dão de presente lembranças cintilantes e momentos que podem ser revelados da forma certa com apenas quatro cores.
Saudades dela.

6.10.06

06 + 10 + 06 = 1/4 x 100

Vinte e cinco anos foi tempo suficiente pra fazer tanta coisa bonita e ainda sobrou tempo pra algumas coisas absurdas. Só me arrependo das várias vezes que fingi não saber que era a hora certa de dizer que eu estava enganada. Mas nem esses momentos submersos em medo e orgulho me impediram de ver, ler e ouvir muito, andar infinito e conversar sobre o impossível.
Sabe o que eu já fiz?
Com certeza bem mais de trinta e quatro milhões de coisas. Já deitei de braços abertos na areia fria e laranja daquele deserto bonito olhando pra cima à procura de formas anômalas voadoras durante uma madrugada inteira, uma vez assisti a uma chuva de meteoros no meio de uma floresta bem longe das luzes da cidade enquanto escutava Dylan me falando pra não pensar duas vezes, em uma dessas tardes que ficam mais ou menos no meio da linha atual eu vi um polvo mudar de cor e textura com uma naturalidade invejável e usei o esqueleto de uma baleia como meu trono surreal, várias vezes tomei sorvete azul com aquele meu amigo alto demais enquanto andava despreocupada nas ruas daquela cidade muito antiga cantarolando músicas italianas felizes, uma noite assisti ao vivo àquela banda que nomeou um álbum de sujo e na mesma noite a filha da Gordon decidiu entrar no palco rodopiando de braços abertos e olhos fechados, fui responsável por aferir radiação, lavar tubos de ensaio e brincar com crianças, conheci um monte de gente legal e já também esqueci o nome de um monte de gente legal e há pouco tempo encontrei meu par no meio de várias pessoas que desconheciam a importância daquelas palmas.
Hoje, assim que acordei, escolhi vinte músicas especiais e salvei como a playlist do dia seis, li um e-mail lindo que falava de coisas fora do comum, acendi um incenso verde, bebi um copo de água bem gelado, escrevi isso e agora vou levantar da cama e começar a viver meu segundo quarto de século.
Vai ser tão bom.

26.9.06

Reflexo.

Estava tentando avistar a cidade lá fora, mas as pessoas ali de dentro ocupavam todo o espaço disponível naquele material cristalino. Continuei insistindo até que no meio dos reflexos impertinentes encontrei você. Na verdade não era apenas você, era o futuro fantasiado de imagem refletida. Através daquele oráculo moderno, te vi sorrindo, passando a mão na minha perna, fumando um cigarro e então consegui enxergar além dos ali presentes, mas não pra ver a cidade viva do outro lado e sim eu e você depois de muito tempo, depois de muita coisa. Um prenúncio de um futuro bonito.

21.9.06

Três coisas sobre elas três.

Déa
Primeira coisa. Ganhei de presente e não devolvo mais. Qualquer pessoa que a tem por perto a considera um presente e secretamente deseja que ela fosse um bibelô pra levar no bolso pra cima e pra baixo.
Segunda coisa. Ela sabe exatamente o que fazer pra transformar meu dia. Colocar uma música no som do carro que eu precisava ouvir, ou uma poesia musicada que foi feita pra mim, dar um beijo e um abraço apertado na hora certa, ou simplesmente falar de uma entrevista sobre amor e paixão que viu na tv.
Terceira coisa. A Déa canta em voz alta comigo dentro do carro e ainda faz as coreografias enquanto dirige. Nada melhor do que “maybe I’m a fool for walking in line”.

Dé
Primeira coisa. Ela é a única pessoa que conheço que consegue falar mais e mais alto do que eu e mesmo assim ser a coisa mais querida.
Segunda coisa. Tem o sorriso mais gostoso do mundo, que conserta tudo de errado ao redor em apenas alguns poucos segundos.
Terceira coisa. É a minha amiga gata massa da praia e do shopping. Parece que ela nasceu do lado do mar, tem relógio da praia, come docinho da praia e vive bronzeada.

Bá
Primeira coisa. Ela tem uma risada que assusta e apaixona. Só ela consegue isso e o melhor é que a risada muda com o tempo.
Segunda coisa. Mais tranqüila do que essa morena cor de jambo dos olhos tão verdes que parecem transparentes não existe. Ficar do lado dela, vendo um intestino gigante cor de rosa e ponderando onde é o apêndice é quase uma terapia.
Terceira coisa. Acho muito lindo como ela trata pessoas que nunca viu antes como se fossem amigos íntimos e como essas pessoas nunca se sentem desconfortáveis. Comigo foi assim. Conheci-a e no mesmo dia ela já prometeu pintar um mural numa parede do meu quarto novo, requisitou apenas música, tintas, amigas e um lanche.

18.9.06

Menta com chocolate.

Ela olhava e sorria sem controle, finalmente encontrou o menino. O desconhecido dela, só dela, aquele que nem precisava de prefácios ou títulos. Continuou olhando, esperando que ele a notasse e percebesse que ela era a desconhecida dele, aquela que ele sempre procurou sem saber. Mas não tinha pressa, estava apenas feliz em finalmente o ver materializado, até então achou que ele fosse apenas um sonho feliz. Foi então que um barulho estrondoso, daqueles que só os que amam escutam, o fez abrir os olhos e a ver bem ali, tão perto, tão real. Logo que a viu não acreditou muito, achava que aquele tipo de sensação só existisse em devaneios bonitos. Mas depois dessa noite boa, ele passou a ser tão dela que tudo antes do barulho ensurdecedor ficou com um jeito de invenção boba e ela tão dele que o futuro ficou com um gostinho bom de menta com chocolate.

17.9.06

Ele, elas e aqueles outros dois.

Ele só encontra as meninas erradas, beija as bocas erradas, segura as mãos erradas, sonha os sonhos errados. Procura a sua menina e só encontra aquelas de temporada. Todas seguem em frente, com destino já conhecido, ou aquele ali com jeito de rebelde ou aquele outro lá que finge ser um monte de coisa. Ele, um coadjuvante sensível, é muito diferente dos outros dois que são protagonistas demais pra se preocupar com um outro alguém, então assiste quietinho enquanto as meninas erradas aos poucos descobrem que aqueles outros dois não são donos de encanto algum. Protagonistas sempre são sem graça, mas toda menina quer conseguir um papel principal, fazer parte do par romântico da história, só depois de um tempo cansam da pressão e tentam voltar pro coadjuvante charmoso, mas aí é tarde, ele já encontrou uma outra aspirante a protagonista que logo não será mais sua. O gostoso desse lero-lero romântico é saber que qualquer dia desses de um céu bem ciano ele vai encontrar uma coadjuvante tão linda e interessante quanto ele que também sonha com o diferente, a menina certa.

10.9.06

Seis coisas.

Gosto muito de você e aqui vai então um pouco de mim.
Não existe nenhuma ordem de importância nessa listinha, nem sei se essas são as coisas que realmente fazem de mim essa Rafaela que vocês conhecem.

Primeira coisa. Sou uma pessoa que alguns classificariam como visual. Adoro cores, cor nunca é demais, na verdade quanto mais, melhor. Está tudo na arte de saber não-combinar-combinando. Xadrez com estampa de oncinha pode ficar lindo e guaraná Jesus é muito mais gostoso porque é rosa.
Segunda coisa. Gosto de dar tudo meu que já não uso mais pra a pessoa certa. Também adoro ganhar a coisa certa de pessoas mais certas ainda. Pulseirinha, sandália, quadro colorido, encarte de cd, camiseta com estampa de oncinha azul.
Terceira coisa. Vicio numa música nova toda semana. Aí escuto a mesma música pelo menos duas ou três vezes por dia, até a música da semana seguinte transformar a velha favorita em obsoleta. Algumas favoritas marcam tanto que até enchem meus olhos de lágrimas felizes, como "love’s a game" que só me lembra um ônibus e aquela amiga que ganhei de presente no meio daquele monte de casinhas em cima de árvores.
Quarta coisa. Demoro muito pra entender coisas que não são diretas. Por isso não tente ser discreto do meu lado, eu vou insistir pra você ser mais óbvio até conseguir entender. Estou até melhorando um pouco no código de meninas. Já sei até o que é um "bom dia", mas falar que uma saia curtíssima é uma saia grande ainda é de difícil decodificação pra mim.
Quinta coisa. Sou completamente fascinada pelo novo, por isso às vezes fico meio entediada no meu dia a dia. Quando isso acontece só preciso ver um filme novo, descobrir alguma banda, conhecer alguém legal, assistir uma peça bonita, sair pra fazer algo que nunca fiz mesmo que seja só assistir a tarde acabar lá no infinito, aí já fico melhor por um pouco mais de tempo.
Sexta coisa. Tenho uma memória péssima, mas guardo com todo cuidado pequenos tesouros de coisas que já ficaram mais pra trás nessa linha estranha que é o tempo e que só me lembram coisas boas. O abraço de cinco minutos numa contagem completamente alternativa, minha amiga me esperando na parada de ônibus com um travesseiro e sacolas com comida, uma outra falando que era um strass, meu irmão pulando em cima de mim, papai levando vitamina pra minhas amigas cedo demais, intestino gigante cor de rosa e uma nova menina, caminhadas longas demais de volta pra casa com ela que nem usa mais aparelho ou óculos, banhos de piscina sem motivo aparente, cereja gigante com neve, café com menta, um cigarro com toque de tangerina e o meu artista inconformado, abraço escondido no corredor do trabalho. Posso não lembrar o nome da menina que estudou comigo na sexta série num colégio que nem lembro mais o nome, ou o dia em que falei que não queria mais ser advogada, ou o dia em que decidi largar a biologia, mas as coisas importantes mesmo estão bem guardadinhas. Vocês todos estão bem aqui comigo, sempre.

O menino.

Só quem estava na plataforma era aquela senhora que há uns quinze minutos me apontou o caminho certo e que agora varria o chão sem muita preocupação de realmente limpar. Já tinha um tempinho que eu esperava pelo fim daquela cena longa demais e sem nenhum elemento surpresa, com o pensamento voando longe e flutuando perto do meu menino, quando vejo uma pessoa correndo lá longe, um menino, não o meu, mas provavelmente da mesma idade. A angústia que ele sentia ao ficar frente a frente com a possibilidade de perder aquele trem estava estampada em todos os seus movimentos. Ele corria e eu, secretamente e sem muito saber o motivo, torcia para que as portas continuassem abertas e o trem não começasse a apanhar velocidade deixando aquele menino que estava claramente em uma missão ali sozinho. Conseguiu. O trem parecia ter esperado exclusivamente por ele. O menino passou um minuto parado, olhando pro chão e recuperando o fôlego, depois examinou o bilhete amassado que tirou do bolso e veio em direção ao assento vazio bem em frente ao meu, onde eu já havia colocado minha bolsa e minhas revistas e já estava planejando apoiar os pés durante a viagem. Retirei minhas coisas e ele nem notou, respirava fundo. Cabelo castanho assanhado, pele muito branca, olhos verdes, barba mal feita, roupa amassada e um piercing na boca com o qual ele brincava enquanto tentava conseguir o que parecia impossível, colocar aquela mochila grande demais pro tamanho dele no compartimento acima dos assentos. Um senhor que estava sentado do meu lado o ajudou. Depois de brigarem com aquela mochila de proporções absurdas por alguns minutos, eles conseguiram, o menino agradeceu e ambos assumiram suas posições de viagem.
Durante o percurso, meu novo objeto de observação folheou uns três jornais diferentes, umas duas revistas e um livro enorme, mas com certeza não conseguiu ler uma frase completa em nenhum deles. Foi para área de fumantes umas cinco vezes, mas não fumou nenhum cigarro até o fim. Não conseguia terminar nada, algo muito importante estava prestes a acontecer e eu ia presenciar esse fato tão perturbador. Eu o observei a viagem inteira sem permissão, mas ele em nenhum momento notou o meu olhar bisbilhoteiro. Eu era para ele uma mera passageira, apenas uma coadjuvante, enquanto ele era o protagonista da história do dia, tanto do meu dia quanto do dele. Descemos na mesma parada e eu como sempre perdi o meu trem umas duas vezes, nunca sei direito para onde ir. Enquanto isso, eu prestava atenção no protagonista. Ele andava para um lado e para o outro, esperando uma vida inteira em quinze minutos, desejando o depois. Os trens chegavam, partiam e ele continuava ali, impaciente, com certeza esperando alguém que nunca deveria ter ficado longe. Um trem vindo de Lisboa parou e ela desceu correndo, a primeira a desembarcar. Eu presencie o fim da história do dia, tão lindo. Um abraço demorado, um beijo carregado de saudade, de vontade, sorrisos sinceros. Ele passava a mão no cabelo dela como se não acreditasse que fosse de verdade e ela o apertava para que ele não voasse longe. Um sonho. Aquela plataforma cinza e suja não existia, para eles era tudo céu, qualquer coisa fora aquele azul que os envolvia era bobagem, besteira.
Finalmente entendi qual trem me levaria pra Coimbra. Entrei e os protagonistas ficaram pra trás, abraçados, felizes. E eu continuei com o meu papel de coadjuvante do dia, podendo apenas sonhar com o menino que foi feito pra mim e que ficou longe. Não quero mais essa distância totalmente dispensável. Será mesmo que não tem um trem que cobre o trecho Porto/Fortaleza diariamente?

20.8.06

Shoreline 7/4

Passei o dia inteiro andando pelas ruazinhas da cidade do Porto. Ruazinhas estreitas, de pedrinhas. Prédios velhos, de cores conflitantes, amontoados, sujos e com azulejos quebrados. Um charme. E o tempo todo faltava aquela pessoa do meu lado, faltava você. Pra que eu pudesse apontar pra qualquer besteira que me interessasse e ser ouvida com todo carinho possível nesse mundo. Faltava você pra me abraçar na hora certa e me dar um beijo no momento perfeito. À noite fui jantar na Ribeira, à beira do rio Douro, as luzes azuis e vermelhas dos bares refletidas na água. Pessoas do mundo inteiro caminhando sem pressa de chegar a lugar algum, apenas com a vontade implícita de ser somente o que o momento pedia. Mas a minha sensação de incompletude diurna persistia, ainda faltava você. Você que é tão bom em contar histórias, você que é tão bom em me amar. Voltamos pro hotel depois do jantar, conversei com minha mãe um pouco e deixei uma lágrima escapar, daquelas que eu guardo com tanta dificuldade. Ela perguntou o que era e expliquei que era a dor da falta de um pedaço meu. Ela dormiu logo em seguida, depois de tentar me consolar dizendo que o tempo passa rápido, apesar de o minuto aqui continuar tendo 60 segundos. Liguei a televisão pra me fazer um pouco de companhia e lá estava você na forma de um festival português. Você está em tudo, em todo lugar. Quando liguei a televisão estava começando a tocar a nossa banda, porque nós temos uma banda e não apenas uma música e eles estavam tocando aquela música que só por causa de você eu sei que o andamento é sete por quatro. Você me explicou com toda a paciência de quem ama o que era um andamento e como funcionava o sete por quatro. Explicou também como os americanos não sabem o que é um quatro por dois e chamam de quatro por quatro slow. Depois disso, as lágrimas que eu estava contendo com tanta precaução fluíram aos poucos e compassadas seguindo o ritmo daquela música que só me lembra você.

29.7.06

Preview.

Eu estava participando de mais um ensaio sem graça de um espetáculo que deveria ser encantador quando você entrou em cena acompanhado daquelas explosões mudas que só eu era capaz de perceber. Elas destruíram sem muito cuidado minhas falsas idéias de felicidade tranqüila e instalaram entre nós uma harmonia que eu desconhecia. Mas agora ando tendo dificuldade de dialogar com os nossos desencontros; tenho medo de sem querer transformar o certo em errado.

1.7.06

Blá Blá Bá.

De madrugada, no banheiro, com mais quatro amigas chorando e ao mesmo tempo rindo. A vida é muito mais complicada do que deveria ser. Cadê a merda do intestino grosso cor-de-rosa? Nunca vou combinar nada com ninguém assim como a Rafa não combina as roupas. Fica tudo mais colorido. Quando a gente usa pulseira no mocotó, até topa um reggae no Trapiche. Que nome engraçado. Dou dois beijinhos ou logo um beijo na boca? Se o tchau foi dando beijo na boca, o oi é do mesmo jeito. Hoje é definitivamente o dia de encontrar minha metade maranhense. Não basta o hippie do Reviver? Claro que não! E uma de fora da ilha perguntou, ele fede? Minha resposta, cheiro natural, sem perfume. Pra gente, não ter um cheiro químico, manipulado, é fedor. Eu juro pra mim mesma que não foi verdade. A nova moda é só a identidade. Por isso eu sempre olho, mas dessa vez eu levei um susto. Estou só escrevendo e pensando no meu músico que está longe. Quem faz escova, cria um subgrupo. E todo mundo encontrou Jesus, enquanto vivia um sonho cor-de-rosa...

14.6.06

Untitled.

Olhei várias vezes, ainda assim demorei um pouco para decifrar a proposta. Quando finalmente entendi, fui comprar uma água e me encantei rápido, mesmo sem título. A partir daí me vi imersa numa história que começou sem introdução e pulou direto para os capítulos do clímax. Só espero que isso tudo seja mais do que um esquete e lembre um pouco aquela historinha daqueles dois descalços no parque.

O trivial e a tragédia.

Aqueles que são fiéis conhecem apenas o lado trivial do amor.
O infiel é que conhece as tragédias do amor.

* Lorde Henry em O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde