6.1.12
24.12.11
dois mil e onze
ô saudade de olhar pra fora e enxergar pra dentro
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3.11.11
em desencanto
quando desanda a desencantar
parece que não tem mais quem segure
ou será que uma flor e um beijo obram milagres?
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24.10.11
Qual é o seu limite?
É sempre importante repensar nossos "até ondes" e "até quandos". Afinal, precisamos reconhecer quando alcançamos a beirada do nosso aceitável. Pro bem da energia vital de cada um.
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5.10.11
ô coisa frágil é coração.
obrigada, mãe. hoje, já voltei a voar sozinha.
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27.7.11
Atenção, amor, cuidado.
Bem que ele dizia: "viver é muito perigoso".
Eu acho lindo esse jeito do Rosa de falar, mas custei a entender a dimensão desse breve dizer. Acabei aprendendo na marra mesmo.
Algumas palavras minhas machucaram profundamente alguém a quem eu quero muito bem. Fui a grande responsável por abrir uma ferida que tem custado a sarar. Errei, desapontei, dancei. Não fui tão atenta quanto deveria, tratei como trivial coisas que eram, na verdade, das mais importantes. Aqui, nem importa como ou porquê, não tem explicação ou detalhe que chegue. Todo dia, faço torcida para que o tempo seja generoso e não deixe uma cicatriz muito feia no que antes era promessa de uma bonita amizade.
Repito: "viver é muito perigoso". É preciso muito cuidado, sempre. Sentimento é coisa delicada e perder alguém é uma dor aguda, do tipo que o olho vê e o corpo inteiro sente. E eu sinto tanta falta dela. Do carinho, da companhia, de ir fazer a unha e conversar miolo de pote, de passear, falar besteira, falar de coisa séria, escutar, contar, estar lá. Ainda vou preparar a minha voz mais sincera e dizer assim com meu coração falando em voz alta: "sei que hoje é difícil de acreditar, mas se precisar, pode contar comigo, sempre, para qualquer coisa, estarei aqui esperando de braços abertos, doida pra te dar um abraço apertado".
obrigada por ter me ensinado uma grande lição.
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26.7.11
Está lançado o desafio.
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14.6.11
sobre meu abuso
Mas ô bichinho pra incomodar.
Vamos logo dando nome aos bois, aqui eu falo do tal do abuso. Olha que eu não sou de abusar muito, mas em relação a você, você e você, babes, ele é indomável. Abuso Mor. Daqueles que dá vontade de fazer carinha de nojinho - tudo no diminutivo mesmo - e bodejar algumas poucas palavrinhas que peguem mesmo nos seus calinhos, os quais eu conheço melhor do que eu gostaria. Felizmente, minha educação católica zen budista não permite.
Moral da história:
Se for pra falar disso, prefiro ficar sem escrever por mais um tempo.
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18.3.11
Tarde de Partida
Mesmo que eu, apaixonante.
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8.1.11
eu e você, aos pingos
Entre palavras tortas e sorrisos enebriados, ele seguia, satisfeito com verdades incompletas e com a cabeça nas nuvens. Eu, sentada naquele chão imundo, rodeada de paredes rosas e lençóis amarelados, perseguida por um ventilador insistente, me sentia traída, cansada, ca-sa-da, lançada. Durante dias, assisti calada o amor evaporar aos pingos e barrancos. O que aconteceu com aquele menino que segurava a minha mão com a maior leveza do universo? Segurava. E, aqui e acolá, salpicava um doce. O menino sumiu. Fugiu. Cansou. Casou. Comigo, no escuro, na correria.
Pra viajar no feliz, comecei a lembrar da música, da cozinha vermelha, das noites recheadas de cerveja e conversas despretensiosas. Nada de teorizar demais, mas muito de viver de tanto. Intensamente. Até altas da madrugada. Aí senti saudade das brigas e do beijo afobado com o dia amanhecendo do lado de fora. De sentar no colo, de correr entre um novo amigo e outro. Entre aquela música e outra. Risos, bar ruim, novidade, arte, cerveja, teatro, bar bom, show, cinema, livros, contos, autores, atores, sorrisos, artistas, músicos, poetas.
No entanto, aqui estou eu, do seu lado, invisível.
Aqui, na minha.
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20.11.10
"a despedida"
Entre a gente foi assim, sem cerimônia. Nada de social. No final, deixou um gostinho doce azedo de tudo-logo-volta-ao-seu-lugar. Mas foi bem massa. Sem a loucura e com ginga de amor antigo. A energia boa estava lá, presença inegável, vibrando no ritmo certo. E, pegando carona na emoção, apareceu a bendita fumacinha verde, que rondou incansável a noite inteira. Meio bêbada, ela sondou doidinha, dançou, se achegou, e insistiu em engolir nós dois como naquele tempo em que andávamos a sete por quatro. E se, vem cá, vai lá, vá, não, fique, volte, siga em frente, volte atrás, deita aqui pertinho, vem, pode entrar. E foi e não foi. Meu bem, é tanta coisa entre lá e cá. Então, satisfeitos mais ou menos, a gente segue seguindo. Amando, lembrando, sentindo falta, querendo mais. Outras vezes, querendo menos. Sempre com a impressão de que alguns goodbyes ainda estão desenhados nesse nosso caminho rumo ao espaço sideral.
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you're my sunday kind of love
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6.11.10
o espelho de j.g.r.
Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive, os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.
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14.10.10
duas vidas
ele e ela um dia acordaram e levaram um susto, não esperavam por isso. justo agora? que os filhos, já crescidos, haviam deixado os dois ali, no cantinho deles. e agora? eles não conseguiam acreditar, acordaram encarnados em dois velhos. haviam deixado o tempo passar assim, bestamente. sem o amor e sem um pingo de loucura. foram duas vidas inteiras no escuro. esperando apenas o dia acabar. só para começar outro e depois acabar de novo. eles nunca entenderam que essa existência só vale a pena quando se ama alguém muito, demais, lindamente. que toda dor só é suportável quando se ama com sorriso grande, com abraço e beijo beijado com gosto de beijo, com cafuné, cangote e pé com pé. viver é mesmo muito perigoso. viver é um segundo. mas o que será que eles dois fizeram com todos aqueles domingos? com tantas tardes ensolaradas, com os dias de céu azul bebê e todas as luas cheias? foram tolos e continuam abobalhados. andando por aí de olhos fechados, cegos, surdos, ansiosos por nem sabem o quê. deitados, noite após noite, um ali do lado do outro, mas sem a terra molhada. duros, estirados no seco, no mesmo, sem água, sem sol, em um abismo de coração. soluço: ei, você e você, amem! olhem no olho do outro, olhem de verdade, durante um sem fim de segundos, despidos de palavras. depois, sorriam, peguem na mão, sintam a textura, a pele, se beijem. namorem. se enamorem! que essa vida aqui só é bonita amando grande.
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26.8.10
ouvi hoje. achei bonito.
"[eu sou] aquela que implorou
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5.8.10
O amor é uma coisa boa
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17.7.10
Unfollow
Ando encontrando dificuldade em manter o balanço. A postura esguia, elegante. É gente demais, palavra, ideia, mentira, coisa, causo, coisas. Um exagero. Muita energia na qual não vale nem a pena vibrar. Vou continuar tentando, insistente, não carregar nas costas mais do que aguento levar sozinha durante a viagem.
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13.6.10
Grama molhada
Hoje, pleno fim de domingo, quase meia-noite, lembrei que tinha esquecido no porta-malas do carro umas coisinhas que iria precisar ainda muito cedo no dia seguinte. Fiquei logo com preguiça, já era tarde. Quase que imediatamente, me imaginei tendo que fazer isso assim que acordasse e essa cena foi um pouco mais desagradável. Desci então, munida de todas as minhas chaves e toda a minha coragem, mas só quando abri a porta de casa foi que percebi, estava descalça. Fui. Mesmo. Assim. Me aventurei.
Meus pés sentiram logo a grama húmida, aquele molhado se metendo por entre cada dedo, uma verdadeira mágica da natureza, orvalho, negócio de condensação. Uma delícia. A primeira e única coisa que consegui pensar foi: no dia que tivermos a nossa grama, eu vou fazer questão de andar descalça nela com você, de mãos dadas, no nosso quintal orvalhado. Não, não só andar, melhor, bem mais. No final do dia, iremos nos deitar, jogados de corpo inteiro, nessa grama encantada, fértil, mãe, olhar para cima e ter a breve certeza de que tudo está exatamente onde deveria estar. Em casa.
Paul, I think I'm gonna be a lousy wife. But don't be angry with me. I love you very much - and I'm very sexy!
Corie Bratter em "Barefoot in the Park", 1967
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30.5.10
19.5.10
Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo
"galega, bom dia. bom dia, meu amor.
hoje é dia 28 de outubro, dia do funcionário público. em fortaleza ninguém trabalha na repartição e eu aqui nesse torrão seco dando um duro danado. faltam 27 dias e 12 horas pra acabar a viagem, parece uma eternidade. do dia que eu saí de fortaleza até aqui quase não vi ninguém na estrada, fico com o rádio ligado, pensando em você a viagem toda e só. chega me cansa de tanto pensar em ti.
hoje parei no posto e vi uma coisa pintada na parede. meio hippie, nem tinha reparado. quando saí é que me caiu a ficha da frase que tava escrito: viajo porque preciso, volto porque te amo."
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17.5.10
G. Rosa
"O mundo é mágico.
As pessoas não morrem, ficam encantadas."
* escuta aqui
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15.5.10
Gimme More!
"Ainda é pouco, muito pouco." Lembro que quando eu li isso pela primeira vez, achei uma injustiça com o nosso amor. Hoje, eu tenho certeza de que realmente era pouco. Era quase nada. Girl, you're gonna carry that weight. Carry that weight a long time.
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Medéia
Um símbolo feminino cruel, chocante, bizarro, mas ainda assim real, atual. Uma mulher que ama. Enlouquece, trai e mata por amor. Este mito foi sempre um dos que mais me intrigou, apesar do certo asco que me causa. A história segue mais ou menos assim:
O herói, Jasão, chega na cidade onde Medéia mora, Cólquida, decidido a tomar para si o tal do velocino de ouro. Basicamente, o velocino era a lã de ouro do carneiro alado Crisómalo, um símbolo sagrado. Medéia faz tudo para ajudar Jasão a conquistar o tesouro desejado. Tudo, tudo. Tudo. Acaba roubando o velocino para Jasão e fugindo com o amado. Pensando na fuga dos dois, Medéia decide levar o irmão com eles. No caminho, mata-o e despedaça-o, assim a sangue frio mesmo. Deixa o irmão em picadinhos. Depois, vai jogando pouco a pouco os restos mortais pelo caminho. Sabia que seu pai, que tentaria alcançá-los, teria que recolher cada pedaçinho do corpo do filho para lhe dar uma sepultura merecida. A macabra da Medéia consegue fugir com Jasão e os dois seguem para Corinto. Lá, passa-se algum tempo e ela chega a ter dois filhos com o louco amor. Mas a sua felicidade é breve. O Rei Creonte, sabe-se lá por qual motivo, implica com a louca da Medéia e convence Jasão a repudiá-la e a casar-se com sua filha, a Creúsa. Coitada da pobre da Creúsa. Ló-gi-co: morre envenenada pela doida. Medéia, irada, possuída de toda a raiva do mundo, de forma fria e premeditada, resolve, então, vingar-se ainda mais de Jasão. Carregada de amor e ódio, mata os dois filhos que teve com ele. Depois do infanticídio, Medéia foge para Atenas. Lá, casa-se com o Rei Egeu, com quem tem um filho. Esse filho, ela batiza de Medo.
"A vida é como um sonho; é o acordar que nos mata." V. Woolf
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4.5.10
♥♥♥ ♥♥ ♥♥♥♥
"Okay, life's a fact, people do fall in love. People do belong to each other, because that’s the only chance anybody’s got for real happiness. You call yourself a free spirit, a wild thing, and you’re terrified somebody’s going to stick you in a cage. Well baby, you’re already in that cage. You built it yourself. And it’s not bounded by Tulip, Texas, or Somali-land. It’s wherever you go. Because no matter where you run, you just end up running into yourself."
* Paul Varjak @ Breakfast at Tiffany's
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27.4.10
straight from the Bible
ai daqueles que ao mal chamam bem, e ao bem, mal
que mudam as trevas em luz e a luz em trevas
que tornam doce o que é amargo, e amargo o que é doce
ai daqueles que são sábios aos próprios olhos, e prudentes em seu próprio juízo
ai daqueles que põem sua bravura em beber vinho, e sua coragem em misturar licores
daqueles que, por uma dádiva, absolvem o culpado, e negam justiça àquele que tem o direito a seu lado
por isso, assim como a palhoça é devorada por uma língua de fogo,
e como a palha é consumida pela chama,
assim a raiz deles sucumbirá na podridão
e sua flor voará como a poeira
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24.4.10
Hoje é dia de Alice.
- Gatinho de Cheshire (...) Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui?
- Isso depende muito de para onde quer ir - respondeu o Gato.
- Para mim, acho que tanto faz... - disse a menina.
- Nesse caso, qualquer caminho serve - afirmou o Gato.
- ... contanto que eu chegue a algum lugar - completou Alice, para se explicar melhor.
- Ah, mas com certeza você vai chegar, desde que caminhe bastante.
- Mas eu não quero me meter com gente louca - ressaltou Alice.
- Mas isso é impossível - disse o Gato. - Porque todo mundo é meio louco por aqui. Eu sou. Você também é.
- Como pode saber se sou louca ou não? - disse a menina.
- Mas só pode ser - explicou o Gato. - Ou não teria vindo parar aqui.
* Lewis Carroll
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13.4.10
Replay: Sedenta por Totalidade
Os objetos materiais sólidos da física clássica se dissolvem no nível subatômico, em padrões de probabilidades semelhantes a ondas. Além disso, esses padrões não representam probabilidades de coisas, mas sim, probabilidades de interconexões. As partículas subatômicas não têm significado enquanto entidades isoladas, mas podem ser entendidas somente como interconexões, ou correlações entre vários processos de observação e medida. Em outras palavras, as partículas subatômicas não são “coisas” mas interconexões entre coisas, e estas, por sua vez, são interconexões entre outras coisas, e assim por diante. Na teoria quântica, nunca acabamos chegando a alguma “coisa”; sempre lidamos com interconexões.
É dessa forma que a física quântica mostra que não podemos decompor o mundo em unidades elementares que existem de maneira independente. Quando desviamos nossa atenção dos objetos macroscópicos para os átomos e as partículas subatômicas, a natureza não nos mostra blocos de construção isolados, mas, em vez disso, aparece como uma complexa teia de relações entre as várias partes de um todo unificado.
* Fritjof Capra em A Teia da Vida.
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6.4.10
Viver é muito perigoso.
Noel tinha a pele de algodão. Era tão branquinha, tão delicada, que eu estava sempre a postos. Preparada para, a qualquer momento, assistir aquele coração escapolir e pousar ali, certinho no meu colo. O cabelo dele era bem ralinho, mas castanho. Mar-rom. Cor de lápis de cor. De terra molhada. O contraste com a pele, com a neve, era mágico. Só vendo, só rindo, que beleza. Era encantador, bendito Noel. Os olhos, verdes de um verde-cinza, eram indecisos, melados. Doidinhos de viver. O sorriso, esse era certamente de um outro mundo. Esbanjava uns caninos pontudos e longos, que deixavam ele com aquele ar vampiresco, um verdadeiro príncipe. Meu Noel. Doce Noel. Noel-beijo. Noel-abraço. Noel-flor. À noite, ele virava nós, e parecia que, mesmo adormecido, continuava transpirando palavras de amor, me embalando, lenta e (e)ternamente, com aquela voz mansa, quente. Segundos sem fim. Eu e ele, apenas dois corpos compartilhando momentos de quase morte, entre aqui e lá. Acolá, já.
Ele chegou na minha cidade convidado pelas tulipas, que já habitavam todos os quintais, calçadas, canteiros centrais, quartos, camas, sofás. Meu vizinho meio perdido havia plantado, durante o inverno, sementes de tulipas gigantes, amarelas. Duvidei, mas lá estavam elas, enormes, brindando com o vento a chegada de Noel. Encantado Noel. Cantando desvarios, uivando amor. Trouxe com ele uma caminhote azul aos pedaços e uma câmera fotográfica velha, bonita, soluçando lembranças. Sem vacilar, tocou a minha campainha, e, sorrindo ding dongs me convidou para a viagem. Depois disso, não consigo mais separar fantasia de ficção. Não lembro se foram meses ou dias. Não lembro quantos anos eu tinha. Nem mesmo sei se Noel era realmente o seu nome. Ele me chamava de uma coisinha linda, inventada por ele. Era uma música. Como era? Quais eram as notas? Não lembro.
Mas lembro sim - lembro muito bem - da casinha do começo do século passado para a qual nos mudamos. Os azulejos do banheiro, já quebrados, sujos, cheios de histórias para contar, tagaleravam. Lembro de tomar banho e conversar com as paredes velhas enquanto ele cozinhava para mim. Uma noite, bolinho de caranguejo. Outra, omelete de cogumelos. Salmão grelhado com aquele molhinho doce importado de nome difícil que só ele sabia onde encontrar. O cheiro. Tão bom. Eu lembro. Como lembro. Foram dias em que eu flutuei, sempre sorriso de ponta a orelha. Não consigo apagar do baú-cabeça como me sentia enquanto subia as escadas, degrau por degrau, aquele cheiro. Madeira, gelo, pinho, pimenta, mais um, outro, âmbar, amaciante, algodão, mais um, gengibre, manjericão, lá vem o último. Pronto. Logo ali, em pé, enfeitando a mesa com flores, ele e aquele suéter de lã velho que se misturava com a pele, com o cabelo, tudo uma coisa só. E assim, jantávamos juntos todas as noites. Conversávamos e morríamos de rir da nossa vida tão delicada, por um fio, nossa casinha velha, aquele piso de madeira musicado. Bebíamos nosso vinho, nossa cerveja escura, doce. E depois do jantar, eu sentava no colo dele, olhávamos juntos nossas novas fotos, todas coloridas. Ele as revelava dia após dia, inúmeras - coloriam nossas paredes. Fazíamos promessas de amor, incontáveis, todas novas. E impossíveis, todas. Ainda levitando, eu ia lavar a louça e ele tomar banho. Eu insistia em preparar o café. Horrível! Mas ele sempre voltava. Ainda mais branco, translúcido, quase escapando desse mundo. Os cabelos molhados, pingando fantasias. E aqueles dentes todos paquerando comigo.
Uma delícia, nossa rotina, nosso pedaço de dia, nossa noite.
Vivemos um tempo juntos, eu e ele. Não lembro ao certo quanto tempo, mas foi todinho nosso aquele tempo. Eu era muito jovem. Já dele, nunca soube a idade. Bonito, o ar de quem viveu amando enganava o tempo. Noel tentava me explicar o nosso amor. Narrava nossas aventuras, fotografava nosso futuro. Rabiscava nossos filhos. Escrevia tudo: Isabela, Aurora, Valentim, Benjamin, Bela. Já eu, comecei a desenhar sonhos fora da nossa casinha de madeira. O jardim foi ficando feio, descuidado. O inverno chegando, as tulipas todas morrendo. Nossa horta, abandonada. Eu não colhia mais os pepinos, que teimavam em aparecer. Os tomates morriam sozinhos. Fantasiei, perdi a cabeça. Fui, aos poucos, abandonando Noel. Ele sussurrava: você está desaparecendo. Não te encontro. As cores estão sumindo. Tudo preto. Tudo branco. Mesmo assim, eu corria endoidecida na direção contrária, evitava voltar. Não olhava mais para os bolinhos de caranguejo. Não brindava mais o amor. Não coava o café. Tinha raiva daqueles azulejos sujos, aquele lodo me enojava. Não trocava mais uma palavra com as paredes. Fingia que nada daquilo existia.
Um dia, decidi. Aquela seria a última vez que eu entrava na casinha da Rua Girassol. Sem pensar muito, juntei tudo que eu julgava ser só meu. Roupas, livros, músicas, cheiros, lembranças, palavras, promessas, cantos, teias de aranha. As fotografias, deixei todas lá. Emolduradas. Coloquei o resto em caixas e subi tropeçando escadas. Bêbada de sentimento. Não senti cheiro de nada, prendi a respiração. Aperreada. Do lado de fora, um Noel de faz-de-conta já me esperava com o carro ligado. Eu ri tanto. Ri muito. Dele. Me pedindo perdão. Chorando. Implorando para eu ficar. Eu? Derramava o nosso amor. Ele? Cantarolava doçuras. Todo mel e jasmim, morangos, doce de leite. Nada. Eu não era nem feliz, nem triste. Aos poucos e bem devagar, ele ajoelhou na minha frente, tirou uma aliança do bolso e ofereceu com todo o amor do mundo, com os olhos verdes mais sinceros: casa comigo.
Em mim, nada eram flores, nada botões. Tudo inverno. Infelizmente, meu querido Noel, as tulipas, agora, só no ano que ainda estava por vir. E isso parecia tão distante. Impossível. Então, eu, apenas uma menina, abri a porta da rua e fui embora. Sem tchau nem porque. Com a pressa de quem não sabe para onde vai. Depois, soube que, passado alguns dias, ele também abandonou a casinha. As fotos ficaram lá, sorrindo para as paredes, tratando de apresentar a casa aos futuros inquilinos. Noel havia arrumado a caminhonete com o que sobrou da história e seguido viagem. Sem mim.
Ao som de: Mil Perdões, Chico.
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